Category: sofrimento

dez32007

gretel

A madrasta acompanhou as crianças ao âmago da floresta, onde jamais tinham estado até então, e após ter feito uma grande fogueira disse: “Sentem-se aqui e descansem; se estiverem cansados, podem até dormir. Vamos cortar madeira e depois chamamos vocês”. Ao meio dia, João e Maria dividiram entre si, como bons irmãozinhos, a única fatia de pão que sobrara. Depois dormiram, mas quando chegou a noite ninguém veio pegar as pobres crianças.

Esse pedaço do conto João e Maria reflete bem a ansiedade que está por trás do meu comer exagerado. Eu ainda me sinto como se tivesse sido abandonada na floresta. Eu não sei exatamente porque, e talvez todo mundo se sinta assim em certa medida. Mas acho que a maioria das pessoas consegue superar. E eu não consegui passar da fase da criança abandonada ainda. E putz, como eu tô velha pra isso né? O fato é que toda vez que eu tento emagrecer eu engordo, porque a ansiedade é grande demais. Eu tenho até taquicardia. Vem novamente o mesmo sentimento de perda e de abandono. Isso é infantil demais. Literalmente. São sentimentos que deviam ter sido superados na infância.

Mas acredito que sempre é tempo né? Preciso respeitar o meu tempo longo, afinal. Eu tive um amigo que me falava assim: Mas putz heim Nalu, você sempre pega o caminho mais dificil né? Ah, mas quem tá perdido sozinho na floresta precisa aprender sobre os caminhos dificeis né? Pois é, mas eu viciei nas dificuldades, percebo. O que é dificil acaba sendo um atrativo. Mas isso não é legal o tempo todo. Modos que como diz a moça perolada, eu tenho que aprender a facilitar. Facilitar a minha vida né?

Também preciso domar esse cansaço que a vida tá passando muito pra eu ficar assim tão cansada.

nov152007

buracos

Fico pensando em tudo isso, em emagrecimento e coisa e tal. (Aliás eu só penso nisso, que monotemática, eu.)

E em como me sinto como alguém amarrado entre dois cavalos que vão em direção oposta. Porque essa coisa de estar gorda ocupa uma parte muito grande do meu dia, vocês nem imaginam o quanto eu penso nisso.

E do outro lado tem o principio do prazer, me incitando a comer e gozar da delícia imediata da comida. À parte todas as correntes que dizem que o buraco é mais embaixo nessa história de comer demais, o que eu acho (às vezes) é que eu simplesmente ainda estou presa nesse lance de querer ter gratificação instantânea.

Tipo, dois pecados capitais de estimação: preguiça e gula. Preguiça de colocar em andamento o principio de realidade, o adiamento dos prazeres, preguiça de abdicar dos prazeres da mesa em nome de um prazer mais longínquo.

Esse é o panorama superficial da coisa, acontece assim: eu tenho preguiça de fazer dieta, eu no fundo acho que não vale a pena abdicar do prazer de comer. Resumindo. Preguiça (ou medo?) de crescer. Porque crescer é dolorido. Pra mim sempre foi. Literalmente, eu tive dor de crescimento.

Mas eu não suporto mais ficar gorda, essa é a tensão minha e de toda pessoa nessas condições, eu acho. Então eu fico querendo um milagre, algo que me faça emagrecer do dia para noite. Não existe, eu sei, mas nada pode me impedir de ter pensamentos mágicos né? Olha só, eu deixo até me pisarem por estar gorda. Fico pensando em coisas como, se eu fosse magra, fulano jamais faria isso comigo, me trataria assim. E não é tanta doideira assim não, viu? Fantasia pura, isso, eu sei.

Então na verdade chego à conclusão que é realmente uma doença. Porque não conseguir parar um comportamento claramente prejudicial é doentio. E fico imaginando qual é o ganho que eu tenho continuando a comer demais, e engordando? Qual é? Porque além do prazer imediato do gosto da comida, não consigo imaginar nenhum outro. Só há cosas horríveis em estar gorda, para mim. Me sinto num beco sem saída. O que eu posso estou fazendo, e estou errando em algum lugar que não sei qual é.

A gordura é uma ótima desculpa pra uma coisa: me arrumar. (olha o ato falho, faltou um não aí hahahaha….)

Eu não faço quase nada do que fazia antigamente com a desculpa de estar gorda. Não arrumo o cabelo, a pele, não uso lente de contato, não me enfeito mais com essa desculpa. Não tenho mais prazer em me arrumar. Não é que eu esteja um lixo, eu me arrumo, mas pra ficar arrumada. Não bonita. Dá pra entender a diferença?

Eu tinha um estilo claro e bem reconhecido de me vestir. Adorava, tinha roupas bonitas, gostava de escolher e tal. Mas é um estilo que engorda e não fica nem um pouco bem em gordas. Tanto que depois que eu parei de me vestir assim, muita gente diz que eu emagreci, mas não, aquelas roupas me engordavam. E a verdade é que eu não posso mais vestir aquilo que fico ainda mais grotesca.

Só que agora perdi o estilo, as roupas são feias, eu não gosto delas e não tenho ânimo pra tentar nada diferente. Esse pode ser o ganho(não me arrumar) .

Mas que ganhozinho porco heim? Acho que eu merecia algo melhor né?

Na verdade eu sei que o buraco é bem mais embaixo, só não achei onde ainda.

E o mais interessante é que eu emagreci. Um pouco só, mas emagreci.

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