Archive for novembro 2007

nov282007

ana e rebeca

Menina teve uma idéia,
e ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia – isso sim -
que precisava testar,
pra conseguir descobrir.

Olha o Olho da Menina – Marisa Prado, disponibilizado pela autora on line

Pois é. Nos comentários do post de ontem, a Ana disse uma coisa muito legal: que a compulsão também era uma forma de quebrar regras. Eu li isso e sabe quando acende uma luzinha no alto da cabeça, como nos desenhos animados? Foi exatamente o que aconteceu comigo, fez até barulhinho!!!!

Porque encaixou com algo que eu venho pensando há tempos, que é: O que eu faço com a Rebelde (chamada Rebeca) que mora em mim?

Eu desde pequena tenho uma veia muito, muito rebelde. Sou alguém que detesta regras, detesta rituais, detesta imposições e autoridades de todo tipo. (Mas como aqui também mora Estela, a Estranha, eu fui fazer Antropologia pra aprender o valor dos rituais e das regras na vida. E como não há humanidade possível sem elas. E fui cultivar a espiritualidade pra me entregar à mais arbitrária de todas a coisas que é a divindade. Qualquer que seja, ainda que seja o Amor.)

Mas isso é outra história, deixa eu concluir meu raciocínio:

Então minhas dietas, regimes, e RAs não duram nem meio dia, porque acordam furiosamente a furiosa Rebeca Rebelde. Ela não se conforma, grita esperneia, e diz: não, não vou deixar. Você não vai se submeter a estas regras, a essa privação de prazer não senhora! Você não vai se conformar com essa imposição ridícula da sociedade, ou seja lá de quem for. Não vai não!!!

E Rebeca a Rebelde, me força a ler coisas absolutamente maravilhosas como esta aqui. E esta. E esta (só pra falar de algumas das leituras que tem a ver diretamente com o corpo), o que alimenta ainda mais sua sanha, pois desnudam muitos véus de coisas e mitos e etcéteras que nos prendem.

Eu já desconfiava que tinha uma boa dose de rebeldia tanto na minha gordura, como na compulsão. Eu como e engordo também porque não pode. Porque não deve, porque todo mundo se priva, mas eu não, eu não vou fazer isso. Grita Rebeca. Também porque no mundo de hoje ser gordo é praticamente uma aberração, é um pecado. Tá todo mundo fechando a boca, se conformando. Rebeca não. O mundo está invadido cada vez mais por uma carbofobia? Então Rebeca ama os campos de trigo, de milho… É verdade o sugar blues ou é mais um delírio? Rebeca vê e me obriga estudar a importância do açúcar para o capitalismo, para a história da civilização, para as senzalas brasileiras… Pra provar sabe lá o quê.

Tá vendo que Rebeca me impulsiona também? Mas Rebeca é adolescente, precisa de orientação…

E ontem o comentário da Ana chegou numa boa hora porque eu percebi que Rebeca Rebelde na verdade não quer protestar contra isso exatamente. Na verdade ela quer se livrar é de outras situações bem mais delicadas que existem na minha vida, mas não encontra forças. Ou não encontra meios, na verdade. Então ela pensa, olha, olha, e decide atacar a parte mais vulnerável que é essa parte da comida. Talvez seja um grito desesperado pra me fazer entender que com certas coisas não dá pra me conformar. Realmente é preciso gritar, espernear e… Mudar.

Talvez ela esbraveje tanto pra me fazer acordar. E talvez ela tenha me feito inchar tanto tanto pra que eu enxergue isso, não é engordando que eu vou dar jeito em nada, só vou alimentar o carrasco que me prende. Mas isso é outra longa história também, fica pra depois. Essa da gordura ser uma big prisão, um carrasco na verdade.

Aí eu aprendi ontem que o Caminho vai passar forçosamente pela Rebeca. Pela satisfação da fome dessa Rebelde. Que no fundo no fundo não se conforma em me ver infeliz. E por alimentar a bichinha adequadamente. E aprender com ela que a minha rebeldia pode ser melhor, bem melhor aproveitada…

Por isso, thank you very very much Ana!!!

nov272007

sempre assim

agonia.jpg

É sempre assim: eu fico mal, pode saber, é coisa do ciclo. TPM. Que de um mísero dia que era antes passou a ser uma coisa indecifrável, inacreditável. Ainda bem que continuam sendo só uns 3 dias no máximo. Então eu fico com os pensamentos altamente descontrolados, eu fico muito estranha, meio obsessiva e muito descontrolada. Mas é só começar o ciclo que eu fico centrada, renovada, cheia de ânimo e de idéias. Mas como o ciclo tá muito curto há muito tempo (na maior parte das vezes) mal dá tempo de me recuperar e pumba, lá vem outra TPM, com suas espinhas, humor sombrio e pensamentos desgovernados. Além de um sentimento terrível de inadequação. ..

Mas o fato é que eu estou na fase de começar. De vez em quando eu fico assim, cheia da ilusão dos recomeços, achando que tudo é possível e que eu tenho forças pra recomeçar. Pois com isso eu marquei oftalmologista, que quero usar lentes de novo e estou tentando marcar uma nutricionista que dizem ser muito boa, de uma filosofia toda diferente, mas não tá dando, parece que ela não tem mais horário. E ainda estou pensando sobre uma atividade física mais esquematizada. Não sei se faço academia. Se volto a dançar, se volto pra ioga… Aceito sugestões

Fica a sensação de que o mundo meio que para nessa época do ano né? Parece que não dá pra começar nada agora, tudo fica pro ano que vem. É mas eu não posso me adiar pro ano que vem né? Nem pensar. Mas hoje, vou fazer como a Ana sugeriu: Só por hoje. Vou tentar não estragar tudo. E nesses pensamentos sobre o só por hoje, lembrei dos comedores compulsivos anônimos, que tem uma coisa dessas, uma linha de só por hoje , de vou me controlar só por hoje. Eu sei o tanto que isso é batido, mas é uma coisa que tem aplicação prática e pode funcionar né? Então só por hoje vou tentar me controlar. Vou tentar cuidar de mim, porque eu bem que mereço.

nov242007

então, que saco!

Olha só. Eu engordei. É mole? Juro que pensei em trapacear. Colocar uma foto antiga da pesagem no controle do peso. Sábado passando em branco, dia de pesagem. O último já passou, sem resultado. Eu fingi que nem era comigo. Mas assustei e já é sábado de novo.

Penso assim: mas que merda, de que adianta tanto blábláblá se no final das contas eu não só não emagreci como ainda engordei?

Então fico p da vida, xingo e crio diálogos mentais massacrantes, do tipo que todo mundo com esse drama conhece:

mas eu não tenho jeito mesmo, que porca gulosa, que coisa horrível, não consegue se controlar. Tão simples, basta ter controle. Ora bolas, pra alguém que já veio até aqui, porque não fecha a boca sua babaca, é tão simples.

E fico nesse diálogo (retardado) mental excruciante durante horas.

Que vergonha!!!!!!!!!

Olha só, as meninas vão vir aqui e tudo que eu sou é essa imensa decepção. Fulana é forte e tá conseguindo. A outra, uma coitadinha e tb tá conseguindo. A segunda é vermelha e consegue. Ai meus sais, mais uma amarela do cabelo verde que conseguiu! Mas como alguém amarelo do cabelo verde consegue emegrecer e eu não?!?!?!?!?!?! Até aqueloutra que usa saia de brim consegui! Talvez eu também devesse usar sai de brim e brincos dourados.

Eu sou idiota mesmo. Tenho mais é que me calar, e pronto

A segunda parte:

mas Nalu, olha só, foi a operação da sua mãe, depois a complicação da cirurgia dela, depois aquele problema tão grande que vc tá passando e não é pouca coisa, sua irmã surtando de novo, no hospital, vc sem apoio nenhum pra ir trabalhar e sustentar a porra da casa, 5 dias de férias perdidos, e ainda por cima uma TPM adiantada de novo (meu ciclo tá doido). Querer e não querer ir pro exterior em janeiro, mas a licença tá concerdida e agora eu tem que ir, ai meus sais…

Então, Nalu, calmaaaaaa.Tá vendo como tem um monte de motivos (bons) pra vc ter engordado? E de todo modo vc nem pensou em se educar , não fez visualização, não meditou, dormiu pouco… Nalu, minha filha, estado de exceção. Tirania do momento e vc sucumbiu…Again and again and again…

Dai outras centas horas nessa inhaca sem fim. Mil desculpas pra me isentar. Outras milhões pra me chafurdar na lama da auto-depreciação de vez. Fecho o blog. Sumo do mundo, como pode alguém ser assim tão idiota! Então pára de tentar emagrecer e se contenta.

E aqui em casa tem um espelhão no fim do corredor principal. Eu passo por ele. Olho de relance, finjo que não vejo. Sigo. Mas não dá. Volto e encaro a gorda ali. Dá pra me contentar em ser assim? Não, por enquanto não, não dá! Eu não gosto da imagem. Ela vai contra todas as milhões e milhões e milhões de imagens com as quais eu fui bombardeada desde que era aquela bebezinha linda, doravante educada pra se achar feia (qualquer dia tenho que contar mais sobre isso). No cinema, nas novelas, nas revistas femininas (e masculinas), na literatura e na poesia recheadas de imagens de um corpo feminino que não podia ser espelho do meu. Nem do seu, Pedro Bó. Isso não foi o que me ensinaram a achar bonito. Nem sexy. E no atual estado, nem muito menos remotamente aceitável. E destilo mais uma dose de ódio contra essa fulana gorda do espelho. Não faltam lamúrias.

Daí me canso. Tento esquecer e pensar em outras coisas. Não dá, o vício em pensar nisso talvez seja mais forte do que o vício do sabor.

Então, minha filha, dá um jeito né? Que puta saco isso.

Então percebo.

Que só tem um jeito. Recomeçar. De novo. E de novo. E de novo ad nauseam. É só o que eu posso fazer. Então hoje decidi mais uma vez um monte de coisa. Que nem vou contar que já tem lenga-lenga demais aqui.

See you next post.

nov212007

post da fal

Eu resolvi postar hoje aqui uma das coisas mais legais sobre ser/estar gorda. Foi a genial Fal que escreveu. Eu chorei no dia que li isso pela primeira vez. Só estava esperando ela autorizar pra postar. E hoje ela autorizou. Eu tava doida pra colocar aqui pra todo mundo ler também.

Gordos e magros. E principalmente pras pessoas cheias de boas intenções e doidas pra emagrecer os entes queridos, os vizinhos, os amigos, etc.

***

Fui gorda a minha vida inteira. Ser gordo é complicado, porque toda a sua fraqueza tá ali, exposta. Batendo o olho, vc não sabe se o cara é alcoólatra, se bate na mulher, se é infeliz, se trái o marido, se é viciado em jogo….mas vc bate e olho e sabe que o cara é gordo (a). E portanto, fraco (a). Sem caráter. Preguiçoso (ad infinitum). Sem força de vontade. E um pouco porco também. Você, automaticamente já sabe todos os defeitos e dores dele, porque vc não aprendeu tudo no Globo Repórter e no programa a Adriane Galisteu? Logo, isso te dá total liberdade de, em público, na frente de qualquer um, expor o coitado do gordo (sim, todo gordo é um coitado. Além de nojo e horror, merece pena), agredindo-o, mas com um sorriso (pq afinal de contas, é para o bem dele). Vc pergunta quanto ele pesa, pq ele é tão gordo, se a mãe dele é gorda, se ele não ouviu falar dessa cirurgia milagrosa e se ele não quer emagrecer. Depois vc pergunta quem faz as roupas dele (claro, um cara desse tamanho, não encontra roupa em loja, ele deve ter uma costureira).
Ciente de que suas fraquezas não estão expostas, sentindo-se mais poderoso do que nunca e sabendo que geralmente o gordo só quer que a conversa acabe logo, vc o ataca impiedosamente (sempre para o bem dele), para gaúdio dos circunstantes. Para escaracterizar a agressão, vc diz coisas como “Mas você tem um rosto tão lindo…”, o que obviamente fará com que o gordo-em-questão que seja grato até morrer (pois sabe-se, que, tirando o Jô Soares, que é um gênio, os gordos são burro…e lentos). Passei por isso anos. Em filas de banco, pessoas que só querem meu bem, já vieram com dietas milagrosas. Lembro-me de muito poucas amigos dos meus pais que não passaram minha infância inteira destruindo a pouca auto estima que eu ainda pudesse ter. Aliás, o que elas não destruiram, minha família me fez esse favor. Lembro de ter uns doze anos e, depois de não ver meu primo (mais velho, ídolo, lindo) durante muitos meses (meu pai era dado a esses sumiços da família dele), ser recebida pelo tal primo com um “Oi! Vc emagreceu ou faz tempo que eu não te vejo??” Um dia, claro, amparado pela psicanálise vc aprende a brigar. A ser grosso mesmo. A mandar a velhinha do banco voltar pro lugar dela e não te encher o saco. A dar esporro em mãe.
A dizer pra tia que já que ela tem tanto interesse nos seus, falemos também dos problemas dela e “quantas são, agora, as amantes do titio?”. A perguntar qual o prazer que a pessoa sente em atacar suas fraquezas e ante a resposta “eu só quero seu bem”, dizer: “e eu só quero o seu….falemos um pouco das suas dores”.
Enfim, jogo baixo. Esse preâmbulo é pra prefaciar esse drops: Eu, num espécie de supermercado de cachorro (tem tuuuudo: caminhas, comida, desinfetantes, roupinhas, xampús…..tudo pra bichinhos), esperando a minha vez no caixa. No caixa ao lado, uma menina duns 16 anos e um guri duns 14. Gordos. Sendo massacrados pela mãe e o que devem ser 2 tias ou amigas de mãe (mães cruéis, geralmente, têm amigas cruéis) … as 3, extremamente bem intencionadas, claro (alguém realmente cha que um outro alguém perde peso assim??) , falam, claro, em voz alta, bradam humilhações, de como é incômodo sair com crianças tão gordas, que chamam tanto atenção, que eles vão morrer aos 30 anos, que eles nunca vão ser nada (palavra de honra, elas diziam isso). Paguei, empacotei, me virei pra sair. Mas não. Sabe o que, vão à merda. Voltei, abri minha bolsa, escrevi o endereço do meu blog num pedaço de papel. Estendi o papel pra menina e disse: “Vcs dois são muito lindos. Se eu inda trabalhasse com publicidade, chamava vcs pra fotos. Tó, meu blog, sabe o que é blog? (parece que todo mundo sabe o que é blog…só eu num sabia) Vou escrever pra vcs lá.” A mãe com a melhor cara de cu que eu já vi na minha vida. As tias mudas. A menina sorriu. O menino sorriu e disse brigado.

Pra vcs, Paula e Renato, que são mesmo muito lindos.
Por fora. Lindos. Não se esqueçam disso.
*******

nov212007

post da fal

Eu resolvi postar hoje aqui uma das coisas mais legais sobre ser/estar gorda. Foi a genial Fal que escreveu. Eu chorei no dia que li isso pela primeira vez. Só estava esperando ela autorizar pra postar. E hoje ela autorizou. Eu tava doida pra colocar aqui pra todo mundo ler também.

Gordos e magros. E principalmente pras pessoas cheias de boas intenções e doidas pra emagrecer os entes queridos, os vizinhos, os amigos, etc.

***

Fui gorda a minha vida inteira. Ser gordo é complicado, porque toda a sua fraqueza tá ali, exposta. Batendo o olho, vc não sabe se o cara é alcoólatra, se bate na mulher, se é infeliz, se trái o marido, se é viciado em jogo….mas vc bate e olho e sabe que o cara é gordo (a). E portanto, fraco (a). Sem caráter. Preguiçoso (ad infinitum). Sem força de vontade. E um pouco porco também. Você, automaticamente já sabe todos os defeitos e dores dele, porque vc não aprendeu tudo no Globo Repórter e no programa a Adriane Galisteu? Logo, isso te dá total liberdade de, em público, na frente de qualquer um, expor o coitado do gordo (sim, todo gordo é um coitado. Além de nojo e horror, merece pena), agredindo-o, mas com um sorriso (pq afinal de contas, é para o bem dele). Vc pergunta quanto ele pesa, pq ele é tão gordo, se a mãe dele é gorda, se ele não ouviu falar dessa cirurgia milagrosa e se ele não quer emagrecer. Depois vc pergunta quem faz as roupas dele (claro, um cara desse tamanho, não encontra roupa em loja, ele deve ter uma costureira).
Ciente de que suas fraquezas não estão expostas, sentindo-se mais poderoso do que nunca e sabendo que geralmente o gordo só quer que a conversa acabe logo, vc o ataca impiedosamente (sempre para o bem dele), para gaúdio dos circunstantes. Para escaracterizar a agressão, vc diz coisas como “Mas você tem um rosto tão lindo…”, o que obviamente fará com que o gordo-em-questão que seja grato até morrer (pois sabe-se, que, tirando o Jô Soares, que é um gênio, os gordos são burro…e lentos). Passei por isso anos. Em filas de banco, pessoas que só querem meu bem, já vieram com dietas milagrosas. Lembro-me de muito poucas amigos dos meus pais que não passaram minha infância inteira destruindo a pouca auto estima que eu ainda pudesse ter. Aliás, o que elas não destruiram, minha família me fez esse favor. Lembro de ter uns doze anos e, depois de não ver meu primo (mais velho, ídolo, lindo) durante muitos meses (meu pai era dado a esses sumiços da família dele), ser recebida pelo tal primo com um “Oi! Vc emagreceu ou faz tempo que eu não te vejo??” Um dia, claro, amparado pela psicanálise vc aprende a brigar. A ser grosso mesmo. A mandar a velhinha do banco voltar pro lugar dela e não te encher o saco. A dar esporro em mãe.
A dizer pra tia que já que ela tem tanto interesse nos seus, falemos também dos problemas dela e “quantas são, agora, as amantes do titio?”. A perguntar qual o prazer que a pessoa sente em atacar suas fraquezas e ante a resposta “eu só quero seu bem”, dizer: “e eu só quero o seu….falemos um pouco das suas dores”.
Enfim, jogo baixo. Esse preâmbulo é pra prefaciar esse drops: Eu, num espécie de supermercado de cachorro (tem tuuuudo: caminhas, comida, desinfetantes, roupinhas, xampús…..tudo pra bichinhos), esperando a minha vez no caixa. No caixa ao lado, uma menina duns 16 anos e um guri duns 14. Gordos. Sendo massacrados pela mãe e o que devem ser 2 tias ou amigas de mãe (mães cruéis, geralmente, têm amigas cruéis) … as 3, extremamente bem intencionadas, claro (alguém realmente cha que um outro alguém perde peso assim??) , falam, claro, em voz alta, bradam humilhações, de como é incômodo sair com crianças tão gordas, que chamam tanto atenção, que eles vão morrer aos 30 anos, que eles nunca vão ser nada (palavra de honra, elas diziam isso). Paguei, empacotei, me virei pra sair. Mas não. Sabe o que, vão à merda. Voltei, abri minha bolsa, escrevi o endereço do meu blog num pedaço de papel. Estendi o papel pra menina e disse: “Vcs dois são muito lindos. Se eu inda trabalhasse com publicidade, chamava vcs pra fotos. Tó, meu blog, sabe o que é blog? (parece que todo mundo sabe o que é blog…só eu num sabia) Vou escrever pra vcs lá.” A mãe com a melhor cara de cu que eu já vi na minha vida. As tias mudas. A menina sorriu. O menino sorriu e disse brigado.

Pra vcs, Paula e Renato, que são mesmo muito lindos.
Por fora. Lindos. Não se esqueçam disso.
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nov212007

filho de peixe

Viu só mãe?

nov202007

segredos da gordinha feliz

Tinha escrito um post meio-amargo (mas claro que não estava bom que nem o chocolate). Reclamão. Mas na verdade, eu estou com preguiça até de reclamar. Eu tenho feito um esforço há algum tempo pra parar de reclamar. Reclamação só na terapia, que reclamar é muito chato (embora eu seja uma pessoa super paciente com reclamações alheias). Mas eu tô num período eu não me aguento. Deve ser por causa da semana de Saturno que eu estou vivendo. Mas dia 22 vem Júpiter, meu padrinho, e as coisas hão de melhorar.

Então, que ninguém merece post-reclamão, eu vou colocar um livro aqui que consumiu minhas horinhas de folga ontem. Li numa sentada. É um livro muito bem humorado, que põe o dedo na ferida de uma forma muito legal. Daqueles livros que em vários pedaços eu pensei: Nossa, mas eu poderia ter escrito isso! Escrito por uma gordinha, claro. Garota Gorda, como ela prefere ser chamada. Recomendo muito. Toca em assuntos que tem pontos em comum com dois outros livros muito interessantes, mas é menos profundo, digamos assim. Tem paralelos com o Mito da Beleza e com Gordura é uma questão feminista. Aliás todos dois disponíveis no blog Feminista.

Então o livro:

segredosgordinha.jpg

SEGREDOS DA GORDINHA FELIZ
Wendy Shanker

TÍTULO ORIGINAL: FAT GIRL’S GUIDE TO LIFE, THE
ISBN: 9788576860280
IDIOMA: Português.
ENCADERNAÇÃO: Brochura | Formato: 14 x 21 | 266 págs.
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2004
ANO EDIÇÃO: 2007
AUTOR: Wendy Shanker
TRADUTOR: Marisa de Menezes de Assis Gomes
Editora: Verus Editora


RESENHA

“Considerando que sou uma pessoa saudável, por que será que tanta gente (incluindo minha vizinha, minha prima e as editoras de revistas femininas) está decidida a fazer com que eu seja magra?” Com essa pergunta e muitas outras, Wendy Shanker nos convida a refletir sobre um tema que preocupa milhões de pessoas. Dos sete pecados capitais, a gula hoje parece o mais presente, e comer sem se preocupar com os quilos a mais não é bem-visto pela sociedade em quase nenhuma situação – das relações sociais e profissionais até as sexuais. Wendy Shanker é uma garota com vários quilos a mais, mas também é uma mulher inteligente e com grande senso de humor que, depois de ter tentado todas as dietas e métodos para emagrecer, decidiu que podia se dar ao luxo de ser feliz com seu tamanho extragrande. Segredos da gordinha feliz conta as aventuras de Wendy em academias e clínicas de emagrecimento, mostra seu espanto diante de dietas absurdas, diverte com suas incursões por lojas de roupa e emociona com seus relatos sobre a aceitação de si mesma, além de apresentar dados alarmantes sobre as empresas que estão por trás do mito da mulher ideal e fazer uma lúcida radiografia da sociedade atual.

Um pouco mais sobre ele no blog dos livros.

nov172007

tiranias

porquecomemos.jpgEssa semana eu li esse livro. Porque comemos tanto. De Brian Wasnick. É bem mais interessante do que eu esperava, foge do muito óbvio no assunto comer. Eu até posso (e vou) falar um pouco mais sobre ele em outra ocasião, mas agora preciso dizer sobre algo que acontecia comigo e que este livro nomeou. E ao nomear, clarificou muito a coisa. Porque a gente sabe que as coisas sem nome ás vezes são invisíveis, mas às vezes têm um poder muito grande. Um poder mais fluido, mais insidioso.

Pois bem, ao ler este livro, bem lá nos finalmentes ele fala de um fato que chama de “a tirania do momento”. Que seria o seguinte, nas palavras do autor:

“podemos nos comprometer a fazer uma pequena mudança na vida, como não fazer comer doces antes do jantar. Podemos anotá-la, fazer o sinal da cruz sobre o coração em juramento e anunciá-la a todo mundo. Podemos estar falando sério, de verdade. Mas avancemos dois dias. Foi um dia frenético no trabalho, você ficou 45 minutos preso no trânsito antes de chegar em casa, está exausto e sabe que tem uma barra de chocolate no canto esquerdo da porta da geladeira esperando você. É fácil quebrar seu juramento, afinal de contas hoje é uma exceção – foi um dia difícil e, para falar a verdade, você não comeu muito bem no café da manhã. Seu plano de alimentação consciente acaba de ser frustrado pela tirania do momento. e o momento – exatamente esse momento, excepcional – ganha forma tirânica e constante.”

Eu já tinha percebido que isso acontece muito comigo. Eu vivo permanentemente sob um estado de exceção. Pois o meu trabalho não tem horário, não tem local definido, não tem constância absolutamente nenhuma – a não ser no aborrecimento diário. (Meu trabalho é um excelente trabalho, disputado no último concurso por mais ou menos uns 30.000 advogados. Mas é altamente estressante.)

Eu não tenho rotina nenhuma no meu trabalho, nada é certo e os dias todos são muito desgastantes emocionalmente. Eu sei que isso não é privilégio meu, e que ter um trabalho agradável é uma dádiva, não é o que acontece com todo mundo. Pelo contrário. Mas o meu tem a peculiaridade de não ter nenhuma rotina pré estabelecida. De não ter sequer um local predefinido. E de não ter nenhum ponto de pausa. O quê, combinado com minha personalidade altamente indisciplinada é arruinante. E me faz viver em permanente estado de exceção. O que não é bom, a gente vê os jornais e sabe que estado de exceção é uma merda. Nem tem muito tempo que saímos de um. E outro estado de exceção marcou a humanidade pra sempre.

Tá legal, eu sou exagerada mesmo. Se não fosse não pesaria o que peso. Mas a comparação é só pra mostrar o estrago que a falta de rotina – ou para ser mais exata – a falta de planejamento e mais uma vez a preguiça fazem na minha vida.

A segunda é uma exceção. A terça e a quarta também. A quinta idem. A sexta, bem, é sexta né? E no sábado e no domingo eu tô cansada demais, desgastada demais e com as baterias mentais pifando pra me preocupar em comer menos calorias. Vivo num estado de exceção. E a tirania do momento se instala. Eu viro escrava. E escrava, prisioneira é como me sinto. Mas reparem que foi uma prisão que eu cavei com minhas lindas e gordas mãozinhas. Que não eram tão gordinhas.

Daí que lendo esse livro eu pude ao menos nomear a coisa. Tirania do momento. Tão f*%d@ como a tirania dos fracos. E percebo que é preciso aceitar que minha rotina é a exceção e que os momentos na verdade não são momentos, são os meus dias. Que se transformam em semanas, meses, que se transforma em anos.

Não dá mais pra fingir que tá tudo bem. Não está. E daqui a pouco pode ser muito tarde pra um monte de coisas. Que infelizmente, e à parte todas as críticas que possa ter a esse modelo que nos obriga a querer secar toda corpo todo vestígio de gordura, é mais real que o rei. E me subjuga também, produto do meio, da cultura e de tudo isso aí que também sou.

O autor até aponta solução para escapar desta armadilha, mas disso eu falo depois.

nov152007

buracos

Fico pensando em tudo isso, em emagrecimento e coisa e tal. (Aliás eu só penso nisso, que monotemática, eu.)

E em como me sinto como alguém amarrado entre dois cavalos que vão em direção oposta. Porque essa coisa de estar gorda ocupa uma parte muito grande do meu dia, vocês nem imaginam o quanto eu penso nisso.

E do outro lado tem o principio do prazer, me incitando a comer e gozar da delícia imediata da comida. À parte todas as correntes que dizem que o buraco é mais embaixo nessa história de comer demais, o que eu acho (às vezes) é que eu simplesmente ainda estou presa nesse lance de querer ter gratificação instantânea.

Tipo, dois pecados capitais de estimação: preguiça e gula. Preguiça de colocar em andamento o principio de realidade, o adiamento dos prazeres, preguiça de abdicar dos prazeres da mesa em nome de um prazer mais longínquo.

Esse é o panorama superficial da coisa, acontece assim: eu tenho preguiça de fazer dieta, eu no fundo acho que não vale a pena abdicar do prazer de comer. Resumindo. Preguiça (ou medo?) de crescer. Porque crescer é dolorido. Pra mim sempre foi. Literalmente, eu tive dor de crescimento.

Mas eu não suporto mais ficar gorda, essa é a tensão minha e de toda pessoa nessas condições, eu acho. Então eu fico querendo um milagre, algo que me faça emagrecer do dia para noite. Não existe, eu sei, mas nada pode me impedir de ter pensamentos mágicos né? Olha só, eu deixo até me pisarem por estar gorda. Fico pensando em coisas como, se eu fosse magra, fulano jamais faria isso comigo, me trataria assim. E não é tanta doideira assim não, viu? Fantasia pura, isso, eu sei.

Então na verdade chego à conclusão que é realmente uma doença. Porque não conseguir parar um comportamento claramente prejudicial é doentio. E fico imaginando qual é o ganho que eu tenho continuando a comer demais, e engordando? Qual é? Porque além do prazer imediato do gosto da comida, não consigo imaginar nenhum outro. Só há cosas horríveis em estar gorda, para mim. Me sinto num beco sem saída. O que eu posso estou fazendo, e estou errando em algum lugar que não sei qual é.

A gordura é uma ótima desculpa pra uma coisa: me arrumar. (olha o ato falho, faltou um não aí hahahaha….)

Eu não faço quase nada do que fazia antigamente com a desculpa de estar gorda. Não arrumo o cabelo, a pele, não uso lente de contato, não me enfeito mais com essa desculpa. Não tenho mais prazer em me arrumar. Não é que eu esteja um lixo, eu me arrumo, mas pra ficar arrumada. Não bonita. Dá pra entender a diferença?

Eu tinha um estilo claro e bem reconhecido de me vestir. Adorava, tinha roupas bonitas, gostava de escolher e tal. Mas é um estilo que engorda e não fica nem um pouco bem em gordas. Tanto que depois que eu parei de me vestir assim, muita gente diz que eu emagreci, mas não, aquelas roupas me engordavam. E a verdade é que eu não posso mais vestir aquilo que fico ainda mais grotesca.

Só que agora perdi o estilo, as roupas são feias, eu não gosto delas e não tenho ânimo pra tentar nada diferente. Esse pode ser o ganho(não me arrumar) .

Mas que ganhozinho porco heim? Acho que eu merecia algo melhor né?

Na verdade eu sei que o buraco é bem mais embaixo, só não achei onde ainda.

E o mais interessante é que eu emagreci. Um pouco só, mas emagreci.

nov102007

a brincadeira dos filmes

Meu marido me convidou para uma brincadeira (a palavra meme me dá gastura…). Eu tenho que escolher alguns filmes com alguma coisa em comum e falar sobre eles. Dai eu escolhi três filmes que tem uma temática que eu adoro. Todos os três filmes são bem marromenos, um (acho que os 3!) ainda é um filme de adolescente, mas a temática me encanta e a verdade é que eu gosto de filme ruim (também).

O que eles têm em comum é o fato de que os personagens principais se encontram consigo mesmo em outras fases de suas vidas e observam o rumo que tomou suas vidas e como isso aconteceu.

Esse tema mexe muito comigo. Porque eu (e a torcida do flamengo) sempre penso nesse grande E SE? que é a vida da gente…

Neles eu penso sobre o imponderável e em como as coisas dão onde dão. Nada mais nada menos que naquele velho lance de tentar organizar o caos, de tentar dar um sentido. Pois a busca de sentido é onipresente no ser humano né? Eu não sei de nada, mas eu (e a torcida do atlético) tenho um certo horror de pensar que as coisas não têm sentido. Eu não posso saber se tem sentido, NUNCA vai acontecer essa sapiência. Então eu tenho que fantasiar e prefiro sempre, mas sempre e eternamente as soluções mágicas.

Então no meu imaginário eu não dou espaço pra coincidencias. Pode ter sido só coincidência? Pode ter acontecido de não ter nada mágico por trás? Pode, pode sim, mas como eu não vou saber (as certezas são algo muito afastado da minha vida), então eu prefiro acreditar fantasiar que o sentido é o mais mágico possível. Aliás, que a magia é o sentido. Por isso eu acredito em várias coisas. Foi a ação do acaso, de uma confluência lógica de coisas com alguma explicação simétrica, mas chata, ou foi algo mágico, maravilhoso? Foi obra do divino, do transcendente? Se não há certeza eu faço a opção pelo mágico.

Minha blogueira favorita, num comentário de um outro blog legal disse que religião é ética for dummies. Sim eu entendo o que ela quis dizer. E de algum modo acho que ela tem razão, enquanto a religião pode servir de fonte de interditos e de normatizadora e blá blá blá blá blá e várias outras coisinhas. Mas a minha praia é um pouco outra. Eu mantive a religiosidade (de um modo bem esquizofrênico, eu sei) na minha vida por vários motivos, incontroláveis e inconscientes e conscientes e controláveis.

E dos motivos que eu posso nomear, há essa necessidade do mágico, do brilhante. E também uma certa inclinação pela beleza, pois é mais bonito visualmente pensar em algo como “o que está em cima é como o que está embaixo“, na influência das estrelas e dos céus na minha trajetória do que achar que não há nada, que há um vazio. Pois esse vazio eu prefiro encher de estrelas. De magia. De orixás e mantras e terços e de acasos lindamente conspiradores.

Eu ainda sou a menina esperando a mamãe contar mais um conto de fadas.

Talvez Sempre esses pensamentos mágicos me alivia(e)m um pouco. Eu sei que gosto muito de pensar que há magia. (Acho que também não é de se desprezar a força – real – dos árquétipos, do inconsciente coletivo e isso é muito religioso. E outros 500 tb)

Por isso a temática desses filmes me fascina tanto. Apesar de serem filmes que nada tem a ver com religiosidade nem religião.

Os três falam do reencontro da pessoa consigo mesma numa época diferente da vida…Esse tema me atrai porque mostra a fragilidade absoluta das nossas escolhas. Uma grande e antiga amiga minha falava o seguinte: “Eu chego da faculdade tarde da noite, e tenho que passar por alguns lugares perigosos, então eu corro, corro, morrendo de medo de topar com algum ladrão, algum mau elemento. Mas e se justamente a minha pressa me fizer cruzar com ele? Justamente os segundos que eu economizei serem os que me levarão ao que eu mais temia?”

Esse é o imponderável que me atrai os olhos. Eu fico como criança em vitrine de brinquedos.

O primeiro e melhor deles é o Dona da História. (trailer acima)

Que delícia poder ver os caminhos que você percorreria caso suas escolhas fossem outras heim?

O outro é Duas vidas, sinopse aqui

E o terceiro, bem infantil é De repente 30

Eu me diverti muito com eles todos. Me tocaram nesse calcanhar que eu tenho tão exposto. E podem assistir.

O Zero Zen tem uma crítica muito legal sobre o Duas Vidas. Detonando, é claro, mas muito divertida e muito pertinente. (palavra pomposa essa).

Aproveito e passo a brincadeira, se elas quiserem, para a Meg, para a Alena, para a , para a Chris.

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