Archive for novembro 2007

nov282007

ana e rebeca

Menina teve uma idéia,
e ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia – isso sim -
que precisava testar,
pra conseguir descobrir.

Olha o Olho da Menina – Marisa Prado, disponibilizado pela autora on line

 

Pois é. Nos comentários do post de ontem, a Ana disse uma coisa muito legal: que a compulsão também era uma forma de quebrar regras. Eu li isso e sabe quando acende uma luzinha no alto da cabeça, como nos desenhos animados? Foi exatamente o que aconteceu comigo, fez até barulhinho!!!!

 

Porque encaixou com algo que eu venho pensando há tempos, que é: O que eu faço com a Rebelde (chamada Rebeca) que mora em mim?

 

 

Eu desde pequena tenho uma veia muito, muito rebelde. Sou alguém que detesta regras, detesta rituais, detesta imposições e autoridades de todo tipo. (Mas como aqui também mora Estela, a Estranha, eu fui fazer Antropologia pra aprender o valor dos rituais e das regras na vida. E como não há humanidade possível sem elas. E fui cultivar a espiritualidade pra me entregar à mais arbitrária de todas a coisas que é a divindade. Qualquer que seja, ainda que seja o Amor.)

 

Mas isso é outra história, deixa eu concluir meu raciocínio:

 

 

Então minhas dietas, regimes, e RAs não duram nem meio dia, porque acordam furiosamente a furiosa Rebeca Rebelde. Ela não se conforma, grita esperneia, e diz: não, não vou deixar. Você não vai se submeter a estas regras, a essa privação de prazer não senhora! Você não vai se conformar com essa imposição ridícula da sociedade, ou seja lá de quem for. Não vai não!!!

 

E Rebeca a Rebelde, me força a ler coisas absolutamente maravilhosas como esta aqui. E esta. E esta (só pra falar de algumas das leituras que tem a ver diretamente com o corpo), o que alimenta ainda mais sua sanha, pois desnudam muitos véus de coisas e mitos e etcéteras que nos prendem.

 

Eu já desconfiava que tinha uma boa dose de rebeldia tanto na minha gordura, como na compulsão. Eu como e engordo também porque não pode. Porque não deve, porque todo mundo se priva, mas eu não, eu não vou fazer isso. Grita Rebeca. Também porque no mundo de hoje ser gordo é praticamente uma aberração, é um pecado. Tá todo mundo fechando a boca, se conformando. Rebeca não. O mundo está invadido cada vez mais por uma carbofobia? Então Rebeca ama os campos de trigo, de milho… É verdade o sugar blues ou é mais um delírio? Rebeca vê e me obriga estudar a importância do açúcar para o capitalismo, para a história da civilização, para as senzalas brasileiras… Pra provar sabe lá o quê.

 

Tá vendo que Rebeca me impulsiona também? Mas Rebeca é adolescente, precisa de orientação…

 

 

 

E ontem o comentário da Ana chegou numa boa hora porque eu percebi que Rebeca Rebelde na verdade não quer protestar contra isso exatamente. Na verdade ela quer se livrar é de outras situações bem mais delicadas que existem na minha vida, mas não encontra forças. Ou não encontra meios, na verdade. Então ela pensa, olha, olha, e decide atacar a parte mais vulnerável que é essa parte da comida. Talvez seja um grito desesperado pra me fazer entender que com certas coisas não dá pra me conformar. Realmente é preciso gritar, espernear e… Mudar.

 

 

Talvez ela esbraveje tanto pra me fazer acordar. E talvez ela tenha me feito inchar tanto tanto pra que eu enxergue isso, não é engordando que eu vou dar jeito em nada, só vou alimentar o carrasco que me prende. Mas isso é outra longa história também, fica pra depois. Essa da gordura ser uma big prisão, um carrasco na verdade.

 

 

Aí eu aprendi ontem que o Caminho vai passar forçosamente pela Rebeca. Pela satisfação da fome dessa Rebelde. Que no fundo no fundo não se conforma em me ver infeliz. E por alimentar a bichinha adequadamente. E aprender com ela que a minha rebeldia pode ser melhor, bem melhor aproveitada…

 

 

Por isso, thank you very very much Ana!!!

nov272007

sempre assim

agonia.jpg

É sempre assim: eu fico mal, pode saber, é coisa do ciclo. TPM. Que de um mísero dia que era antes passou a ser uma coisa indecifrável, inacreditável. Ainda bem que continuam sendo só uns 3 dias no máximo. Então eu fico com os pensamentos altamente descontrolados, eu fico muito estranha, meio obsessiva e muito descontrolada. Mas é só começar o ciclo que eu fico centrada, renovada, cheia de ânimo e de idéias. Mas como o ciclo tá muito curto há muito tempo (na maior parte das vezes) mal dá tempo de me recuperar e pumba, lá vem outra TPM, com suas espinhas, humor sombrio e pensamentos desgovernados. Além de um sentimento terrível de inadequação. ..

 

Mas o fato é que eu estou na fase de começar. De vez em quando eu fico assim, cheia da ilusão dos recomeços, achando que tudo é possível e que eu tenho forças pra recomeçar. Pois com isso eu marquei oftalmologista, que quero usar lentes de novo e estou tentando marcar uma nutricionista que dizem ser muito boa, de uma filosofia toda diferente, mas não tá dando, parece que ela não tem mais horário. E ainda estou pensando sobre uma atividade física mais esquematizada. Não sei se faço academia. Se volto a dançar, se volto pra ioga… Aceito sugestões

 

Fica a sensação de que o mundo meio que para nessa época do ano né? Parece que não dá pra começar nada agora, tudo fica pro ano que vem. É mas eu não posso me adiar pro ano que vem né? Nem pensar. Mas hoje, vou fazer como a Ana sugeriu: Só por hoje. Vou tentar não estragar tudo. E nesses pensamentos sobre o só por hoje, lembrei dos comedores compulsivos anônimos, que tem uma coisa dessas, uma linha de só por hoje , de vou me controlar só por hoje. Eu sei o tanto que isso é batido, mas é uma coisa que tem aplicação prática e pode funcionar né? Então só por hoje vou tentar me controlar. Vou tentar cuidar de mim, porque eu bem que mereço.

nov242007

então, que saco!

Olha só. Eu engordei. É mole? Juro que pensei em trapacear. Colocar uma foto antiga da pesagem no controle do peso. Sábado passando em branco, dia de pesagem. O último já passou, sem resultado. Eu fingi que nem era comigo. Mas assustei e já é sábado de novo.

 

Penso assim: mas que merda, de que adianta tanto blábláblá se no final das contas eu não só não emagreci como ainda engordei?

 

Então fico p da vida, xingo e crio diálogos mentais massacrantes, do tipo que todo mundo com esse drama conhece:

mas eu não tenho jeito mesmo, que porca gulosa, que coisa horrível, não consegue se controlar. Tão simples, basta ter controle. Ora bolas, pra alguém que já veio até aqui, porque não fecha a boca sua babaca, é tão simples.

E fico nesse diálogo (retardado) mental excruciante durante horas.

 

Que vergonha!!!!!!!!!

Olha só, as meninas vão vir aqui e tudo que eu sou é essa imensa decepção. Fulana é forte e tá conseguindo. A outra, uma coitadinha e tb tá conseguindo. A segunda é vermelha e consegue. Ai meus sais, mais uma amarela do cabelo verde que conseguiu! Mas como alguém amarelo do cabelo verde consegue emegrecer e eu não?!?!?!?!?!?! Até aqueloutra que usa saia de brim consegui! Talvez eu também devesse usar sai de brim e brincos dourados.

 

Eu sou idiota mesmo. Tenho mais é que me calar, e pronto

 

A segunda parte:

 

mas Nalu, olha só, foi a operação da sua mãe, depois a complicação da cirurgia dela, depois aquele problema tão grande que vc tá passando e não é pouca coisa, sua irmã surtando de novo, no hospital, vc sem apoio nenhum pra ir trabalhar e sustentar a porra da casa, 5 dias de férias perdidos, e ainda por cima uma TPM adiantada de novo (meu ciclo tá doido). Querer e não querer ir pro exterior em janeiro, mas a licença tá concerdida e agora eu tem que ir, ai meus sais…

 

Então, Nalu, calmaaaaaa.Tá vendo como tem um monte de motivos (bons) pra vc ter engordado? E de todo modo vc nem pensou em se educar , não fez visualização, não meditou, dormiu pouco… Nalu, minha filha, estado de exceção. Tirania do momento e vc sucumbiu…Again and again and again…

 

Dai outras centas horas nessa inhaca sem fim. Mil desculpas pra me isentar. Outras milhões pra me chafurdar na lama da auto-depreciação de vez. Fecho o blog. Sumo do mundo, como pode alguém ser assim tão idiota! Então pára de tentar emagrecer e se contenta.

 

E aqui em casa tem um espelhão no fim do corredor principal. Eu passo por ele. Olho de relance, finjo que não vejo. Sigo. Mas não dá. Volto e encaro a gorda ali. Dá pra me contentar em ser assim? Não, por enquanto não, não dá! Eu não gosto da imagem. Ela vai contra todas as milhões e milhões e milhões de imagens com as quais eu fui bombardeada desde que era aquela bebezinha linda, doravante educada pra se achar feia (qualquer dia tenho que contar mais sobre isso). No cinema, nas novelas, nas revistas femininas (e masculinas), na literatura e na poesia recheadas de imagens de um corpo feminino que não podia ser espelho do meu. Nem do seu, Pedro Bó. Isso não foi o que me ensinaram a achar bonito. Nem sexy. E no atual estado, nem muito menos remotamente aceitável. E destilo mais uma dose de ódio contra essa fulana gorda do espelho. Não faltam lamúrias.

 

 

Daí me canso. Tento esquecer e pensar em outras coisas. Não dá, o vício em pensar nisso talvez seja mais forte do que o vício do sabor.

 

 

Então, minha filha, dá um jeito né? Que puta saco isso.

 

Então percebo.

 

 

Que só tem um jeito. Recomeçar. De novo. E de novo. E de novo ad nauseam. É só o que eu posso fazer. Então hoje decidi mais uma vez um monte de coisa. Que nem vou contar que já tem lenga-lenga demais aqui.

 

See you next post.

nov212007

post da fal

Eu resolvi postar hoje aqui uma das coisas mais legais sobre ser/estar gorda. Foi a genial Fal que escreveu. Eu chorei no dia que li isso pela primeira vez. Só estava esperando ela autorizar pra postar. E hoje ela autorizou. Eu tava doida pra colocar aqui pra todo mundo ler também.

Gordos e magros. E principalmente pras pessoas cheias de boas intenções e doidas pra emagrecer os entes queridos, os vizinhos, os amigos, etc.

***

Fui gorda a minha vida inteira. Ser gordo é complicado, porque toda a sua fraqueza tá ali, exposta. Batendo o olho, vc não sabe se o cara é alcoólatra, se bate na mulher, se é infeliz, se trái o marido, se é viciado em jogo….mas vc bate e olho e sabe que o cara é gordo (a). E portanto, fraco (a). Sem caráter. Preguiçoso (ad infinitum). Sem força de vontade. E um pouco porco também. Você, automaticamente já sabe todos os defeitos e dores dele, porque vc não aprendeu tudo no Globo Repórter e no programa a Adriane Galisteu? Logo, isso te dá total liberdade de, em público, na frente de qualquer um, expor o coitado do gordo (sim, todo gordo é um coitado. Além de nojo e horror, merece pena), agredindo-o, mas com um sorriso (pq afinal de contas, é para o bem dele). Vc pergunta quanto ele pesa, pq ele é tão gordo, se a mãe dele é gorda, se ele não ouviu falar dessa cirurgia milagrosa e se ele não quer emagrecer. Depois vc pergunta quem faz as roupas dele (claro, um cara desse tamanho, não encontra roupa em loja, ele deve ter uma costureira).
Ciente de que suas fraquezas não estão expostas, sentindo-se mais poderoso do que nunca e sabendo que geralmente o gordo só quer que a conversa acabe logo, vc o ataca impiedosamente (sempre para o bem dele), para gaúdio dos circunstantes. Para escaracterizar a agressão, vc diz coisas como “Mas você tem um rosto tão lindo…”, o que obviamente fará com que o gordo-em-questão que seja grato até morrer (pois sabe-se, que, tirando o Jô Soares, que é um gênio, os gordos são burro…e lentos). Passei por isso anos. Em filas de banco, pessoas que só querem meu bem, já vieram com dietas milagrosas. Lembro-me de muito poucas amigos dos meus pais que não passaram minha infância inteira destruindo a pouca auto estima que eu ainda pudesse ter. Aliás, o que elas não destruiram, minha família me fez esse favor. Lembro de ter uns doze anos e, depois de não ver meu primo (mais velho, ídolo, lindo) durante muitos meses (meu pai era dado a esses sumiços da família dele), ser recebida pelo tal primo com um “Oi! Vc emagreceu ou faz tempo que eu não te vejo??” Um dia, claro, amparado pela psicanálise vc aprende a brigar. A ser grosso mesmo. A mandar a velhinha do banco voltar pro lugar dela e não te encher o saco. A dar esporro em mãe.
A dizer pra tia que já que ela tem tanto interesse nos seus, falemos também dos problemas dela e “quantas são, agora, as amantes do titio?”. A perguntar qual o prazer que a pessoa sente em atacar suas fraquezas e ante a resposta “eu só quero seu bem”, dizer: “e eu só quero o seu….falemos um pouco das suas dores”.
Enfim, jogo baixo. Esse preâmbulo é pra prefaciar esse drops: Eu, num espécie de supermercado de cachorro (tem tuuuudo: caminhas, comida, desinfetantes, roupinhas, xampús…..tudo pra bichinhos), esperando a minha vez no caixa. No caixa ao lado, uma menina duns 16 anos e um guri duns 14. Gordos. Sendo massacrados pela mãe e o que devem ser 2 tias ou amigas de mãe (mães cruéis, geralmente, têm amigas cruéis) … as 3, extremamente bem intencionadas, claro (alguém realmente cha que um outro alguém perde peso assim??) , falam, claro, em voz alta, bradam humilhações, de como é incômodo sair com crianças tão gordas, que chamam tanto atenção, que eles vão morrer aos 30 anos, que eles nunca vão ser nada (palavra de honra, elas diziam isso). Paguei, empacotei, me virei pra sair. Mas não. Sabe o que, vão à merda. Voltei, abri minha bolsa, escrevi o endereço do meu blog num pedaço de papel. Estendi o papel pra menina e disse: “Vcs dois são muito lindos. Se eu inda trabalhasse com publicidade, chamava vcs pra fotos. Tó, meu blog, sabe o que é blog? (parece que todo mundo sabe o que é blog…só eu num sabia) Vou escrever pra vcs lá.” A mãe com a melhor cara de cu que eu já vi na minha vida. As tias mudas. A menina sorriu. O menino sorriu e disse brigado.

Pra vcs, Paula e Renato, que são mesmo muito lindos.
Por fora. Lindos. Não se esqueçam disso.
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